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sábado, 9 de fevereiro de 2008

Memórias do arco autonómico

james dean in http://www.thinkfn.com/forum/viewtopic.php?t=12794
Colocada: 2008-02-07 18:03

Assunto: os homens nascem descalcos e devem morrer calcados

Nasci no ano em que comecou a segunda guerra mundial, 1939, numa freguesia do norte da Madeira. Quando fui para a escola com 7 anos, ninguem usava sapatos e eu sim. Nao havia electricidade na vila, e eu tinha um gerador. Nao havia frigorificos e eu tinha um a petroleo. Nao havia radio e eu tinha. Nao haviam casas de banho, e eu tinha com duche e agua quente. Cresci com os meus colegas de escola, que aos 1o anos iam trabalhar para o campo, descalcos, e esfomeados, comendo por vezes so os produtos da terra, batatas e couves, sem dinheiro para o pao. Lembro-me de muitos, mais inteligentes que eu, que tiveram de emigrar aos 15 anos para a Africa do Sul. Lembro-me de nos anos 1940, passear num Pontiac descapotavel do meu pai, enquanto as criancas corriam ao lado do carro. Lembro-me da injustica que era, de os proprietarios das terras, se deslocarem em redes, transportados por muitos kms pelos trabalhadores. Lembro-me de criancas irem ao mar buscar agua, para as maes fazerem as sopas, pois nao havia dinheiro para comprarem o sal. Lembro-me do padre da vila, tio do Alberto Joao, correr da igreja as mulheres que se via o tornozelo. Lembro-me do padre dizer na igreja que quem votasse no general Humberto Delgado, iria logo para o inferno. Lembro-me que nao havia medico, nao havia transportes...e havia muita fome. E porque me lembro disto tudo, logo eu que tive tudo? Porque a minha vida foi marcada pela infancia,e deixei de pactuar com a injustica, a falta de liberdade. Ainda me lembro do padre, a referir-se a mim, no sermao da igreja, dizer que eu estava possuido de ideias internacionalistas. Vim para Lisboa, onde havia pessoas calcadas, melhor vestidas, mas nao havia liberdade. Nunca fui politico, no strictus sensus, mas com a minha revolta combati o fascismo. Fui preso no forte de Caxias, em cela debaixo da terra, com a humidade a brotar das paredes. Tive como colega de cela, o Mario Sottomayor Cardia, que havia de ser ministro da educacao. Estou a ve-lo depois de um interrogatorio em que lhe partiram os oculos e deslocaram a retina, entrar na cela, sem ver, mas sem um lamento. Fui expulso da faculdade por 3 anos nas greves academicas de 62, depois de ter feito a greve da fome. E porque me lembro agora disto tudo e transporto para voces este meu desabafo? So porque, as desigualdades sociais se alargam, porque ha fome escondida, porque nao acredito nos politicos, e porque pelo menos tenho liberdade, que entao nao tinha, de gritar bem alto, todas as injusticas que observo. Felizmente quando as pessoas morrem, ja nao sao enterradas descalcas.